segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
domingo, 19 de dezembro de 2010
Imagem

No espelho infinito dos teus olhos,
li as duas palavras do código secreto
que tinhamos estudado, há milhões
de anos para nos descobrirmos,
hoje neste outro mundo.
Pedi ao tempo para me trazer a tua voz,
assim fácil de amar, através de prados
dourados e regatos prateados,
para repousar no meu ser como
um fragmento ténue de um sonho.
Onde o acordar me traz sempre dor,
espero no silêncio, deste quarto cerrado,
onde tudo fala de ti, espero em silêncio,
que o tempo esqueça, que o tempo limpe
a parte mais bonita de mim.
sábado, 18 de dezembro de 2010
Vénus

À flor da vaga, o seu cabelo verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda...
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a razão se perde!
Pútrido o ventre, azul e aglutinoso,
Que a onda, crassa, num balanço alaga,
E reflui (um olfacto que embriaga)
Que em um sorvo, murmura de gozo.
O seu esboço, na marinha turva...
De pé flutua, levemente curva;
Ficam-lhe os pés atrás, como voando...
E as ondas lutam, como feras mugem,
A lia em que se desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co'a salsugem.
Camilo Pessanha (1867-1926)
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
I am the escaped one

I am the escaped one,
After I was born
They locked me up inside me
But I left.
My soul seeks me,
Through hills and valley,
I hope my soul
Never finds me.
Fernando Pessoa (1888-1935)
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Se houvesse degraus na terra

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
(Herberto Helder)
domingo, 12 de dezembro de 2010
Sonho Adentro

Viajo nos pés de um sonho,
virado de pernas para o ar,
que brilha num pequeno canto
do tempo,
Avisto uma lua suspensa,
entre céus, assim se calhar
um céu branco aberto,
para detectar vida no meu interior,
Sinto no voo que me persegue,
uma brisa de nada que com golpes, abre este céu em tarde, noite
e manhã, que se agita sem um grito,
Corpo despido na sua carne tenra,
bebido por misteriosas águas,
murmuradas do passado, devagar,
pelos vastos salões da memória,
na linha do horizonte que recua.
Brincam folhas secas de estrelas
em ramos estéreis, nas franjas
deste sonho, quando todo
o universo se apaga.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Sim, sei bem

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.
Ricardo Reis (Heterónimo de Fernando Pessoa)
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Para Ti

Foi para ti que
desfolhei a chuva
para ti soltei
o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas
as palavras e todas
me faltaram no minuto
em que talhei o sabor
do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida
Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
domingo, 5 de dezembro de 2010
Ausência

Penso em ti, quando sinto a suavidade
nas aspiras do vento, no silêncio do sol,
na sorridente eternidade.
Escuto as palavras que não dizes.
Meço a distância que não nos separa.
Cronometro o tempo que nunca passou.
Faço gestos inúteis, sem significado,
que nenhuma lógica sabe interpretar,
e são assim um sentido de mim
do meu procurar-te, do meu encontrar-te.
O amanhecer saberá se calhar dizer-me
que fio de seda devo escolher,
no labirinto sem saída dos teus olhos.
sábado, 4 de dezembro de 2010
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Poema de Amor para Uso Tópico

Quero-te, como se fosses
a presa indiferente,
a mais obscura das amantes.
Quero o teu rosto
de brancos cansaços,
as tuas mãos que hesitam,
cada uma das palavras
que sem querer me deste.
Quero que me lembres
e esqueças como eu
te lembro e esqueço:
num fundo a preto e branco,
despida como a neve matinal
se despe da noite, fria, luminosa,
voz incerta de rosa.
Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
A Neve

A neve pôs uma toalha
calada sobre tudo.
Não se sente senão
o que se passa dentro de casa.
Embrulho-me num cobertor
e não penso sequer em pensar.
Sinto um gozo de animal
e vagamente penso,
E adormeço sem menos
utilidade que todas
as acções do mundo.
Alberto Caeiro,
Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)
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