quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Viagem



Há olhos que só olham o sonho;
e, quando o sonho se dissipa, ficam cegos.

Há pontes por onde não se passa, no inverno,
embora ninguém as guarde: pontes sem arcos,
abstractas como um arco-íris e frias como
a chuva da madrugada.

Um campo de erva que amadurece;
o feitiço fútil dos faróis quando a manhã
limpa as últimas névoas;
um bater de pálpebras como asas:

imagens que lembro
e me restituem os olhos
com que avisto a entrada da cidade.

[Nuno Júdice]

Fotografia de Mehmet Turgut (Todos os direitos reservados)

Fotografia de Helmut Newton (Todos os direitos reservados)

A prova



...Reparei que tinha comprado lingerie nova, desfilou pelo quarto afagando o cabelo, ardendo por um comentário meu.
- Gosto muito.
- Comprei-a a pensar em ti, sabia que irias gostar. (sorrizinho)
Parou em frente ao espelho para os últimos retoques de maquilhagem...
-Como foi o dia?
-mmm,bom!
E pelo quarto aquela essência de perfume divagou na minha memória que me levou a recuar no tempo, até a um final de tarde na baixa, numa boutique de lingerie, indeciso sobre o que lhe havia de comprar para aquela ocasião tão especial (o jantar que lhe tinha prometido que até há data não conseguira realizar, mas desta vez ia ser mesmo), indeciso e um pouco atrapalhado com números, copas, modelos com alças ou sem alças. Tive a noção que a funcionária se aproximara e que reparou como me sentia indefinido na minha escolha.
-Boa tarde.
-Boa tarde.
-Posso ajudar?
- Sim, gostaria de comprar lingerie para a minha mulher, para uma ocasião especial, é uma surpresa, mas não sei que número veste e como é a primeira vez...
-Compreendo. Poderia ajudar se me dissesse como é o corpo dela.
-Bem, ela é...(a funcionária dá dois passos para trás enquadrando perfeitamente o seu decote na minha visão.)
-Sim...(diz ela)
-mmm, não querendo errar neste aspecto mas diria que os corpos se assemelham...
A funcionária sabendo que iria fazer uma e talvez a última venda do dia, tornou-se bastante atenciosa.
-Como já estamos na hora de fechar e será a última venda que faço hoje, (dirige-se para a porta trancando-a, colocando o letreiro em "Fechado") provarei os modelos de lingerie para si, podemos entrar nesta sala...
Ela própria escolheu os modelos expostos que poderiam também vestir a minha mulher e entramos.
Não queria acreditar no que se estava a passar, aquela mulher lindíssima estava à minha disposição, tinha o seu corpo à minha disposição.
Quando entramos na pequena sala forrada a espelhos não falamos, adaptamo-nos somente às nossas expectativas. Trazia um vestido alaranjado, com flores e uma fita que lhe modelava a cintura e se perdia num laço perfeito, laço esse desfeito com olhar fixo em mim. Sentei-me num velho sofá que jazia num canto da sala.
Ela abriu o vestido mostrando o seu corpo, talvez esculpido por algum anjo de Deus, digno de ser pintado, cantado por um poeta, um corpo "estratosférico".
Dirige-se para mim afaga-me o cabelo e dá-me um beijo.
-Onde estavas?
-Estava a olhar para ti.
-Parecias longe.
-Não. Estava mesmo aqui.
-Vamos?
-Vamos...

Fotografia de Mehmet Turgut (Todos os direitos reservados)

Amanda


Fotografia de Sasha Vine (Todos os direitos reservados)

O Silêncio



Quando a ternura,
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem,
os teus olhos,
e procuram,
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras,
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas.

[Eugénio de Andrade]

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

[...]


"Habitantes que avançavam uns para os outros de lábios entreabertos, de lábios secos e quentes, de lábios famintos, de lábios trémulos que suplicavam, ganiam e rogavam, que mordiam e maceravam outros lábios. E sóbrios, também todos eles. Perfeitamente sóbrios. Na verdade excessivamente sóbrios. Sóbrios como criminosos prestes a fazer um "trabalho". A convergirem todos uns para os outros numa emorme e rodopiante forma de bolo, com as luzes coloridas a brincar-lhes nas caras, nos bustos e nos quadris, a cortá-los em fitas nas quais se emaranhavam e entreteciam, mas de que conseguiam sempre libertar-se habilmente enquanto rodopiavam, corpo a corpo, face contra face, lábios contra lábios."

Tempestade


Amarras aos lençois,
a volúpia do teu corpo,

um mar à cama ficou preso,
com o intento apenas,
de sensualidade respirar,

queres sem tréguas,
numa felicidade oculta,
nossas almas imersas.

Beck - The Golden Age

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Suavidade


Leio com as mãos,
linhas que fazem,
do teu corpo prosa,

versos escritos,
em teus seios rosa,
sonetos inteligíveis que,
nos meus lábios beijas,

quando tuas coxas,
abandonadas se,
abrem em forma,
de poema.

Un chien Andalou (1928)


Noite



Um copo sobre a mesa,
o teu vestido esquecido no tapete,
e na minha cama tu,
doce presente dos presentes,
frescura da minha vida,
calor da minha noite.

Chicago by night

segunda-feira, 27 de setembro de 2010


Fotografia de Pat Merz (todos os direitos reservados)

Saudade morta


É reforçar a ponte dos,
sentimentos,
entrar numa via de,
dois sentidos,
ouvir passos que se,
afastam num dia de chuva,
mergulhar na via láctea,
do tempo,

É até qualquer dia,
É olá...de novo.

domingo, 26 de setembro de 2010

Maika Makovski - Lava Love

Big shhh

Leonard Cohen - Boogie Street

Luz


Da escuridão sonhei,
apareces em forma de luz,
luz harmonia de ser,
sonho que se torna,
uma sucessão de cores,
milhares de cores,
milhões de cores,
que respiram juntas,
as cores da vida,
és vida,
és...a minha vida.

Paris à noite



Três fósforos acessos um por um na noite,
o primeiro para te ver o rosto,
o segundo para te ver os olhos,
o último para te ver a boca,
E toda a escuridão para me recordar destas coisas,
enquanto te aperto entre os braços.

[Jacques Prevèrt]

sábado, 25 de setembro de 2010

The Beatles- Blackbird


Fotografia de Mehmet Turgut (Todos os direitos reservados)

Rosto


Fecho os olhos,
e vejo o teu rosto.

Viajo ao interior dos teus olhos,
sem destino, pois são eles,
os pontos cardeais que,
capturam as emoções do meu ardor.

Provo dos teus lábios a graça,
quando colidem com os meus,
união de essências,
universos desconhecidos.

Penso o teu sorriso,
e o significado que ele tem,
que me ilumina o sentido,
criterioso no brilhar.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Sonho


Sonho um sonho
que o sonho não sabe
que o não consegue sonhar.
Sonho que sonho
que o sonho, um dia,
se vai mascarar…
de sonho!?!
Tão sonhado é este sonho
que o próprio sonho
se sonha tão sonhado!!!!

Sonho um sonho
que o sonho não sabe
que o sonho não tem,
mas sonho que sonha
esse sonho
um sonho comigo também…

[Paula Fonseca]

Cativo

Ragnatela
Abre a porta,
sou eu somente,
estou aqui em baixo,
cheio de saudade,
esta saudade que,
me faz cativo que,
raízes no meu peito,
quer criar,

Abre a porta,
sou eu somente,
o DESEJO e quero ser...

...LIVRE!

Quero

Ragnatela
Quero como nunca antes quis,
Quero como a noite quer morrer,
Quero como o dia quer aparecer,
Quero como a chuva quer cair,
Quero como só o coração quer,
Quero como só eu sei querer,
Quero voltar a nascer...

Momentos

Ragnatela

Vi-te,
Falei-te,
Desejei-te,
Partiste,
Não amadureci em ti,
Não me conheci.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Norah Jones-The Long Way Home

um corpo antes



ele pensou...
a paixão corrói e fortalece em igual medida o carácter,
não lenta mas instantaneamente e de tal modo que a personalidade
entra em desequilíbrio e num desgoverno desesperado em ambos os sentidos. A corrosão é o resultado da vontade de fazer tudo o que for necessário para obter o objecto do nosso desejo, mesmo que signifique recorrer à mentira ou ao engano ou aviltar o que outrora se estimou. O fortalecimento é o resultado do conhecimento de que somos capazes de amar intensamente, de uma compreensão que, paradoxalmente, nos deixa uma sensação de gratidão e orgulho apesar da carnificina...
depois pousou o copo, despiu o roupão de seda, aproximou-se dela abraçando-a por trás pela cintura, sentindo no seu peito o perfume doce dos seus belos cabelos negros, beijou-a no pescoço e murmurou-lhe languidamente no ouvido...
dá-me noites inesquecíveis e dias fantásticos...ela voltando-se, abraça-o entrelaçando os dedos à volta do pescoço e pousando
o seu olhar castanho dourado sem destino mas destinada disse...

Quebranto


O teu sorriso correctamente,
o imaginei,
d'uma pura luz surgiu,

Criaturas divinas,
Serafins, Querubins, Arcanjos,
e Anjos,
que dizes filhos teus,

Sob a liça do Amor,
capitulei...

...que humano sou!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Elysian Fields - Star

Teu Corpo de Agosto




Teu corpo é agosto
Tu cheiras a verão
por baixo das veias

Tu cheiras a quente
Tu cheiras à febre
do sangue maduro

Teu ventre de orgia
teu cheiro a sodoma
aroma-mulher

Teu corpo de agosto
tem cheiro a setembro

(Manuela Amaral)

Anda vem



Anda vem..., porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha --- rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
--- Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!... Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos...
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!

António Botto (1897-1959)