domingo, 19 de dezembro de 2010

Imagem


No espelho infinito dos teus olhos,
li as duas palavras do código secreto
que tinhamos estudado, há milhões
de anos para nos descobrirmos,
hoje neste outro mundo.

Pedi ao tempo para me trazer a tua voz,
assim fácil de amar, através de prados
dourados e regatos prateados,
para repousar no meu ser como
um fragmento ténue de um sonho.

Onde o acordar me traz sempre dor,
espero no silêncio, deste quarto cerrado,
onde tudo fala de ti, espero em silêncio,
que o tempo esqueça, que o tempo limpe
a parte mais bonita de mim.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Iron & Wine - Love Vigilantes

Vénus



À flor da vaga, o seu cabelo verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda...
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a razão se perde!

Pútrido o ventre, azul e aglutinoso,
Que a onda, crassa, num balanço alaga,
E reflui (um olfacto que embriaga)
Que em um sorvo, murmura de gozo.

O seu esboço, na marinha turva...
De pé flutua, levemente curva;
Ficam-lhe os pés atrás, como voando...

E as ondas lutam, como feras mugem,
A lia em que se desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co'a salsugem.

Camilo Pessanha (1867-1926)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

I am the escaped one



I am the escaped one,
After I was born
They locked me up inside me
But I left.
My soul seeks me,
Through hills and valley,
I hope my soul
Never finds me.

Fernando Pessoa (1888-1935)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

EELS- That Look You Give That Guy

Se houvesse degraus na terra



Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

(Herberto Helder)

domingo, 12 de dezembro de 2010

David Sylvian & Robert Fripp - Every colour you are

Sonho Adentro


Viajo nos pés de um sonho,
virado de pernas para o ar,
que brilha num pequeno canto
do tempo,

Avisto uma lua suspensa,
entre céus, assim se calhar
um céu branco aberto,
para detectar vida no meu interior,

Sinto no voo que me persegue,
uma brisa de nada que com golpes, abre este céu em tarde, noite
e manhã, que se agita sem um grito,

Corpo despido na sua carne tenra,
bebido por misteriosas águas,
murmuradas do passado, devagar,
pelos vastos salões da memória,
na linha do horizonte que recua.

Brincam folhas secas de estrelas
em ramos estéreis, nas franjas
deste sonho, quando todo
o universo se apaga.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Sim, sei bem



Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.


Ricardo Reis (Heterónimo de Fernando Pessoa)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Márcia - Pra quem quer

Para Ti



Foi para ti que
desfolhei a chuva
para ti soltei
o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas
as palavras e todas
me faltaram no minuto
em que talhei o sabor
do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos

simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

domingo, 5 de dezembro de 2010

The National - Daughters Of The Soho Riots

Ausência


Penso em ti, quando sinto a suavidade
nas aspiras do vento, no silêncio do sol,
na sorridente eternidade.

Escuto as palavras que não dizes.
Meço a distância que não nos separa.
Cronometro o tempo que nunca passou.

Faço gestos inúteis, sem significado,
que nenhuma lógica sabe interpretar,
e são assim um sentido de mim
do meu procurar-te, do meu encontrar-te.

O amanhecer saberá se calhar dizer-me
que fio de seda devo escolher,
no labirinto sem saída dos teus olhos.

sábado, 4 de dezembro de 2010


Mick Jagger por Andy Warhols (Todos os direitos reservados)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Richard Hawley - Open Up Your Door

Poema de Amor para Uso Tópico


Quero-te, como se fosses
a presa indiferente,
a mais obscura das amantes.

Quero o teu rosto
de brancos cansaços,
as tuas mãos que hesitam,
cada uma das palavras
que sem querer me deste.

Quero que me lembres
e esqueças como eu
te lembro e esqueço:
num fundo a preto e branco,
despida como a neve matinal
se despe da noite, fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Neve



A neve pôs uma toalha
calada sobre tudo.
Não se sente senão
o que se passa dentro de casa.
Embrulho-me num cobertor
e não penso sequer em pensar.
Sinto um gozo de animal
e vagamente penso,
E adormeço sem menos
utilidade que todas
as acções do mundo.

Alberto Caeiro,
Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

Mazzy Star - Flowers in December

domingo, 28 de novembro de 2010

Agora Que Te Encontrei


Incido a minha imagem,
no espelho do teu sorriso
e observo vacilar dentro,

As ondas que irradiam
no tempo e no espaço.

Nos seus confins
por ventura imaginários
reúnem-se as estrelas,

Sobre as frágeis malhas
dos meus sonhos, misteriosa
linguagem onde harmonizam
o mar o céu e a terra.

E agora que te vi reluzir
como a última estrela,
quero adormecer no seio
do mar,

Coberto pela eterna
roupagem das folhas,
com a coragem de sonhar
e de te amar.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Terei Eu


Terei eu todo o folêgo,
de que preciso, debaixo das
nuvens, para reclamar
o meu amor às estrelas ?

Terei eu todos os anos
para experimentar as emoções,
inteiras, que o teu primeiro
sorriso em mim fez nascer ?

Estremeço com o pensamento
de não ser digno, nem mesmo,
de pensar em ti.

Mas tu, Amor, não acabarás mais ?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

domingo, 21 de novembro de 2010

Coração d' Outono


A calma onde caminho,
está a apodrecer nas folhas
que a abraçam.

Movimentados pelo vento
os meus membros absorvem
o sumo do Outono,

E o fogo aveludado, da alma
que alimenta o tempo.

Coração que queimou,
que o avisto ainda,
desfeito em terra
no fogo que cujo se libertou.

Posso recolhê-lo e elevá-lo
nos braços e perguntar,
Como foi cortada a lenha ?
Como disposeram os cepos ?
E como a acenderam ?

Recontarão as chamas,
tudo do princípio ao fim
na luz que o amanheceu,
da solidão que as acendeu.

Brian Eno & David Byrne - Strange Overtones

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Corpo Envolto


Perdi o meu olhar,
no pensamento
que dos teus olhos sai,
fogo que em mim despertas
e me secas,
nas tuas mãos,
calor forjado
no covil húmido
do teu ventre
que não mente
que sente,
tesão eu,
no teu corpo envolto,
sem nãos.

Cat Power - I Believe in You (Bob Dylan)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Voo de Pardais


Fugiu de mim um pensamento
ligado a um movimento
desalinhado, manifestado,
em todo o meu desalento.

No rosto d'um papel branco
tentei prendê-lo, em tinta que chovia
da pena que no meus dedos sentia.

Lutam pena e negra tinta,
contra com o meu pensamento,
imenso sem o seu consentimento,
mas quero que a gentileza ele sinta.

Num ponto negro sem fundo,
do meu pensamento, que não vejo,
mas sinto, um buraco que se precipita,
no tormento sem ter a força de o escrever.

Reflexo ou inspiração, apenas de cabeça
para baixo e solto no voo de pardais,
como se vivesse num binóculo entre
uma lente e outra, entre duas lágrimas iguais.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

domingo, 14 de novembro de 2010

Echo & The Bunnymen - All My Life

Sonho Contigo


Às vezes sonho contigo, que me sorris, que me dás a mão, caminhas em ponta dos pés sobre as arcadas do meu coração.

A energia estelar que emana dos teus olhos, ora são flores, ora são anjos, que protegem a minha vida, arrebatem as minhas fraquezas, fortificam-me nas minhas tantas incertezas.

Assim o teu amor posso eu sentir, que d'um céu sem forma nasce e que num céu sem forma vive, que por o nosso amor deseja luzir.

É uma magia que resplandece
no silêncio e que me fascina,
que me liga a ti indissoluvelmente.

Outras estás longe e indiferente.

sábado, 13 de novembro de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Palavras que Emudecem


Quando as palavras,
são pequenos fogos,
quando dentro delas,
qualquer coisa queima,
e não podem dizer,
o que conseguem dizer.

Apagam-se.

Em frente de quem
as sente, mentem-se,
nas respostas que não são,
o que sentem, extinguem-se.

Dizem de mais,
dizem demasiado,
dizem as falas,
que não dizem nada,
que não servem para nada,
que pesam o dobro,
sangram o dobro.

Suicidam-se.

O único desejo das que sobrevivem,
é ferir, abrigadas no alívio cinzento
da dor das que ainda ardem,

Enlouquecem.

Existindo nesta forma para
se sentirem melhor, emudecem.

Echo & The Bunnymen - Zimbo (All My Colours)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Conheço o Sal



Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Jorge de Sena (1919 -1978)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Eremitério



mais nada se move em cima
do papel nenhum olho de tinta
iridescente pressagia o destino
deste corpo os dedos cintilam
no húmus da terra

e eu

indiferente à sonolência
da língua ouço o eco do amor
há muito soterrado encosto
a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior dessa ânfora alucinada desço com a lentidão ruiva das feras ao nervo onde a boca procura o sul e os lugares dantes povoados

ah meu amigo

demoraste tanto a voltar
dessa viagem o mar subiu
ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado
pela serena desilusão
assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto (1948-1997)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

The Czars - Song To the Siren

Estrelas de Papel


Estive no meio de um oceano,
onde voavam estrelas de papel
com riscas do arco-íris, presas,
em flocos de espuma como cordel.

Senti a tua voz chamar-me,
em voz baixa, o meu nome,
no assobio melodioso do vento.

Que no meio naquele maravilhoso,
oceano quis abraçar-me.

Colhi-a num sorriso que nasceu
da semente do teu murmurar no mar plantada, que permanece agora,
no rasto das estrelas de papel tatuada.

David Bowie - Conversation Piece

domingo, 7 de novembro de 2010

Red House Painters - Song For A Blue Guitar

No Meu Entardecer


Foste chegando no seu tardar,
já o dia esmorecia, para dar
lugar à noite, futuro que
do teu rosto não mais fugia
na linha do meu horizonte.

Na filigrana leve do teu olhar,
vi que eras o destino de todas
as palavras que na vida pronunciei.

Caminhos que os meus passos
traçaram, até à trama final do imenso labirinto, onde deslumbrei, a luz imensa para te encontrar.

Não te mexias, a minha mão enterneceu na tua, chamei-te pelo nome, esperei-te, tu já o sabias.

sábado, 6 de novembro de 2010

Tom Verlaine - A Stroll

La Figa


La figa è una ragnatela,
un imbuto di seta,
il cuore di tutti i fiori.
La figa è una porta
per andare chissà dove.
O una muraglia che devi buttar giù.
Ci sono delle fighe allegre
e delle fighe matte del tutto,
delle fighe larghe e strette.
Quelle che sbadigliano e non dicono una parola
neanche se l'ammazzi.
La figa è una montagna bianca,
bianca di zucchero.
Una foresta...dove passano i lupi.
E' la carrozza che tira i cavalli.
La figa è una balena vuota
piena di aria nera e di lucciole.
E' la tasca dell'uccello,
la sua cuffia da notte,
un forno...che brucia tutto.
La figa quando è l'ora,
è la faccia del Signore.
La sua bocca.
E' dalla figa che venuto fuori il mondo,
con gli alberi, le nuvole e anche il mare.
E gli uomini, uno alla volta. Di tutte le razze.
E dalla figa...è venuta fuori anche la figa
Ostia la figa!

(Tonino Guerra)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Mulher de Areia


Grãos de fina areia loira, ténue
risca estendida da bolsa azul
de um céu descosida, caídos,
no início e fim de um sorriso
pela recordação moídos.

Um sussuro ajoelha-se na areia,
a construir grandes castelos
como o sol, pequenas mãos,
belos instrumentos singelos.

Recordação que no castelo vive,
encalhada na areia, que a primeira
onda da noite abaterá, num bafejo
que da vida saboreia.

O caos dos mortos no primor
de um castelo, com o sol fechado
na areia, que rasga as vestes
do sorriso com rumor.

A morte é o sorriso de tudo,
somente um fantasma no castelo
guerreia, uma mulher de areia perfeita,
pela primeira onda da manhã desfeita.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

The Jesus And Mary Chain - Darklands



Sal do Corpo



No sal do teu mar quero
afundar o meu prazer,
dessedentar a minha boca,
refrescar a minha fome.

Mar sereno em mar revolto,
marés nos braços onde nado,
mel salgado, que me nutre,
das tuas pernas escorre
em suspiros envolto.

Segredos de doces melodias
do teu olhar se revelam,
que o grande cálix consolam,
divino néctar, preciosa jóia
onde, tu loucura mordias.

Na imensa curva da lua,
dois corpos abandonados,
num céu incerto, pela volúpia
alimentados.

Nos lábios, acenos num sorriso,
só nosso, para sempre indiviso.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

David Sylvian & Robert Fripp - Wave

Lágrimas que Soltas


Fragmentos de alma e de vida
que permanecem suspensos
nos ventos da indiferença
como uma dança melancólica
que se dispersa a cada nota sentida.

Desvendas em lágrimas a esperança
que despes, pregos da nossa cruz,
desgostos, amarguras, sonhos,
que ao amanhecer morrem
com o latejar do nascer do sol.

Que fazer senão sobreviver,
a estes fogos a estas cinzas,
no recital dos anos que continuam,
a nascer e morrer cada dia sem piedade.

Blur - To the End



sábado, 30 de outubro de 2010

Quero os teus braços


Cativa no meu olhar ficaste,
cálice de vinho tinto quente,
que nas veias te corre,
lábios embriagados,
inebriados os teus,
que nos meus abrigaste.

Do céu da tua boca sonhos
nascem, palavras libertas
que aprisionam poetas,
na eterna curva da lua,
onde as areias mais finas
das estrelas crescem.

Quero os teus braços,
alcova dos amantes,
recordações no tempo,
deliciar-me lá, no furacão
das emoções, que preenchem
os seus espaços.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Nick Drake - A Skin Too Few



Um filme documentário sobre a vida de Nicholas Rodney Drake (1948-1974)

Amor Insone



No espelho do lago eterno
dos teus olhos, nasceram
do silêncio, beijos afogados,
resgatados do inferno.

Queima dentro de mim
o corpo que ferraste,
prisioneiro dos movimentos
que nos lençóis deixaste.

Desejo falar-lhe, agarrá-lo,
desnuda-lo , sentir novamente
a sua prosa nua, palavras
fecundas de brasas, ventre
que consente e extenua.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Noites de Verão


Desvaneceu a luz de uma pequena lágrima
de prata, que de repente no céu,
do sopro dos meus dedos se acendeu.

Deixou-me só, debaixo da chuva fina,
na varanda da casa deserta,
sonhada, que em segredo ardeu.

Queria dizer-lhe o que experimento
quando em ti penso. Dizer-lhe o quanto
é difícil pensar em ti num só momento.

Dizer-lhe que és a minha liberdade,
dizer-lhe que és a minha escravidão,
dizer-lhe que és a minha carne que queima
como a carne nua, nas noites de verão.

Palavras de Amor



Esqueçamos as palavras, as palavras:
As ternas, caprichosas, violentas,
As suaves de mel, as obscenas,
As de febre, as famintas e sedentas.

Deixemos que o silêncio dê sentido
Ao pulsar do meu sangue no teu ventre:
Que palavra ou discurso poderia
Dizer amar na língua da semente ?

José Saramago (1922-2010)

domingo, 24 de outubro de 2010

Fragmentos


Novelos de sonhos,
surgem na minha mente,
d'um abismo de estrelas
soprados.

Como madrugadas luminosas,
de versos que se ensaiam,
em vastos prados.

Sonhos embrulhados em
palavras de cristal, sílabas
ao vento roubadas,
em montes suavemente
desmaiadas.

Palavras que jamais,
serão noite, com raízes
para o horizonte lançadas.

Da ponta dos dedos cresçem,
sob as arcadas da solidão,
respiram devagar, em teias
de enredos que floresçem.

O Poeta Pede a Seu Amor que lhe Escreva



Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

Federico Garcia Lorca (1898-1937)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Alvorecer


Noite que em movimentos,
lânguidos despe o céu,
que lhe veste a pele.

O seu olhar rompe,
o véu da luminosidade,
que faz o amanhecer sorrir.

Onde tu és a última
estrela e o primeiro sol.

A derradeira sombra desce,
docemente, para nos braços
do horizonte se deitar
suavemente.

Em harmonia a espera,
no primeiro raio de claridade
e dá um sentido eterno e cálido,
aos nossos vultos enamorados.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O mais belo dos mares



O mais belo dos nossos mares
é aquele que ainda não navegamos.

O mais belo dos nossos filhos
ainda não nasceu.

O mais belo dos nossos dias
ainda não o vivemos.

E aquilo que de mais belo
te desejo dizer ainda não te disse.

Nazim Hikmet (1901-1963)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Folhas no vento


Tenho um pensamento
preso nas minhas folhas,
angustiado, do livro das
recordações libertado.

Extraído com músicas
em ferida num lamento.

Foram palavras que arderam
em dor, como o fogo que nos meus olhos colocaste.

Feitiço nas minhas mãos
amarrotado, em cinzas
de ardor transformado,
quando com o vento te
deitaste.

Recordação do meu destino
que já não arde em mim.

Amores desamoráveis,
olhares que se perdem,
no rasto perfumado de
estrelas inalcançáveis.

Voamos



Promessas de noites d'amor,
meigas como lembranças,
abandonadas em ardor,
com ansiedade abraças.

Queimo as minhas mãos,
nas delícias do teu corpo,
silêncios suados, arfados,
palavras de desejo,
dos meus lábios amados.

Perfume de seios e coração,
loucuras que me passam pela
mente, possuir-te assim
por trás ou pela frente.

Os teus suspiros saboreio,
ávidos loucos os meus sentidos,
selvagens na doçura excitação.

Penetro com fervor num
buraco negro do infinito,
danças em cima de mim,
com o meu corpo, insisto.

Na antecâmara do amor,
numa paleta de cores e
abandono, do momento
cósmico do orgasmo
legado com clamor.

Na lassidão e espasmos
de prazer...pousamos,
que no abraço dos
nossos corpos,voamos.

domingo, 17 de outubro de 2010

Recordação


Estou a consumir,
a recordação da tua,
última e breve presença.

Momentos demasiado
intensos, os nossos ,
que como furacões,
fustigaram e deixaram,
a ausência na minha vida.

O que fica é a desolação,
que espera até,
ao próximo encontro.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Amor que sabe a mar


O amor é maior do que o mar, tão poderoso,
de vista sem fim,
capaz de cegar.

O amor é tão belo como o mar, adultos em crianças se tornam, com olhos a brilhar, corações famintos,
que a saber a mar se querem abandonar.

Vida que tem outro sentido quando conhece o amor,
a perfeição tem outra visão
quando a vida sabe a mar,
na existência estes valores
queremos partilhar.

Em frente ao mar podemos ,
como no amor, num vai e vem
de ondas infinito, um novo
sabor a mar, na vida encontrar.

Amor-te


No silêncio da noite que arde,
abrigo-te dentro do meu abraço.

No esplendor das estrelas do
céu da tua boca abrigo-te
dentro do meu beijo.

Na ternura serena do amanhecer
que nasce dos teus olhos abrigo-te
dentro do meu olhar.

Na mais tormentosa tempestade
que queres fechar nas tuas mãos
abrigo-te dentro do meu carinho.

Na alegria que nasce no sol e na
tristeza em forma de mil lágrimas
abrigo-te dentro do meu sorriso.

Dentro do coração do meu,
coração...abrigo-te.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Fuga


No refúgio sou consumido,
nas asas d'um pássaro fujo,
através do vale fértil flutuo,
onde o sonho é crescido.

Campos e florestas,
com palavras se formam,
crescem, semeadas por
agricultores de mãos mestras.

Nuvens que se comprometem,
em formas recortadas pelo céu,
beijadas nos seios pelo vento,
nos braços do sol derretem.

Ninfas que duras não são,
para quem amam,
aos olhares de Brama,
se desnudam puras,
dos prazeres que abrasam a alma.

Rios que não correm para o mar,
que nascem, a montante pela
inspiração e se diluem a jusante,
na pena da criação.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

I carry your heart with me



i carry your heart with me
(i carry it in my heart)
i am never without it
anywhere i go you go,my dear;
and whatever is done by only me
is your doing,my darling)

i fear no fate (for you are my
fate,my sweet) i want no world
for beautiful you are my world,
my true) and it's you are whatever
a moon has always meant and whatever
a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody
knows (here is the root of the root
and the bud of the bud and the sky
of the sky of a tree called life;
which grows higher than the soul
can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's
keeping the stars apart

i carry your heart (i carry it in my heart)

E. E. Cummings (1894-1962)

Adeus


Deixa-me,
assim como apareceste.

Deixa-me,
sem um sinal,
sem uma palavra,
fogo d'uma lareira,
que se extingue.

Deixa-me,
sem um olhar.

Deixa-me,
faz-me escutar o eco dos
teus passos afastarem-se,
na chuva.

Deixa-me,
através da janela
escutar o dilúvio.

Deixa-me assim,
sem um verdadeiro,
adeus.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Falar às Palavras



Quero falar às palavras,
Quero falar-lhes com frescor,
Quero saber como se constituem,
Quem foi o seu escultor.

Quero falar-lhes com,
palavras, não com sangue,
quero escrever-lhes com
rosto, sem que me engane.

Quero palavras que saiam
do molde, palavras com ventre,
imagens vivas a elevarem-se,
na mente.

Não quero palavras,
pavorosas, sem sol,
que brilham na sombra,
como plantas venenosas.

Não quero palavras,
que se calcam, sem honra,
que agarram, ferem e matam.

Quero palavras eloquentes,
escritas com emoção, quero,
palavras que batam como,
um coração.

domingo, 10 de outubro de 2010

Deslumbre


Do todo já não resta nada,
na areia da praia de prata,
que Poseidon escolheu como,
amada.

Voam quadros de,
nuvens claras pintados,
das mãos aos filhos de Éolo,
arrancados.

O teu olhar que o brilho,
ao sol roubou, suave e doce,
no meu pousou e logo,
o raptou.

Na espuma das ondas,
desenhamos o que,
nos une, num beijo,
lacrado nas essências
d'um só perfume.