sábado, 30 de outubro de 2010

Quero os teus braços


Cativa no meu olhar ficaste,
cálice de vinho tinto quente,
que nas veias te corre,
lábios embriagados,
inebriados os teus,
que nos meus abrigaste.

Do céu da tua boca sonhos
nascem, palavras libertas
que aprisionam poetas,
na eterna curva da lua,
onde as areias mais finas
das estrelas crescem.

Quero os teus braços,
alcova dos amantes,
recordações no tempo,
deliciar-me lá, no furacão
das emoções, que preenchem
os seus espaços.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Nick Drake - A Skin Too Few



Um filme documentário sobre a vida de Nicholas Rodney Drake (1948-1974)

Amor Insone



No espelho do lago eterno
dos teus olhos, nasceram
do silêncio, beijos afogados,
resgatados do inferno.

Queima dentro de mim
o corpo que ferraste,
prisioneiro dos movimentos
que nos lençóis deixaste.

Desejo falar-lhe, agarrá-lo,
desnuda-lo , sentir novamente
a sua prosa nua, palavras
fecundas de brasas, ventre
que consente e extenua.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Noites de Verão


Desvaneceu a luz de uma pequena lágrima
de prata, que de repente no céu,
do sopro dos meus dedos se acendeu.

Deixou-me só, debaixo da chuva fina,
na varanda da casa deserta,
sonhada, que em segredo ardeu.

Queria dizer-lhe o que experimento
quando em ti penso. Dizer-lhe o quanto
é difícil pensar em ti num só momento.

Dizer-lhe que és a minha liberdade,
dizer-lhe que és a minha escravidão,
dizer-lhe que és a minha carne que queima
como a carne nua, nas noites de verão.

Palavras de Amor



Esqueçamos as palavras, as palavras:
As ternas, caprichosas, violentas,
As suaves de mel, as obscenas,
As de febre, as famintas e sedentas.

Deixemos que o silêncio dê sentido
Ao pulsar do meu sangue no teu ventre:
Que palavra ou discurso poderia
Dizer amar na língua da semente ?

José Saramago (1922-2010)

domingo, 24 de outubro de 2010

Fragmentos


Novelos de sonhos,
surgem na minha mente,
d'um abismo de estrelas
soprados.

Como madrugadas luminosas,
de versos que se ensaiam,
em vastos prados.

Sonhos embrulhados em
palavras de cristal, sílabas
ao vento roubadas,
em montes suavemente
desmaiadas.

Palavras que jamais,
serão noite, com raízes
para o horizonte lançadas.

Da ponta dos dedos cresçem,
sob as arcadas da solidão,
respiram devagar, em teias
de enredos que floresçem.

O Poeta Pede a Seu Amor que lhe Escreva



Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

Federico Garcia Lorca (1898-1937)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Alvorecer


Noite que em movimentos,
lânguidos despe o céu,
que lhe veste a pele.

O seu olhar rompe,
o véu da luminosidade,
que faz o amanhecer sorrir.

Onde tu és a última
estrela e o primeiro sol.

A derradeira sombra desce,
docemente, para nos braços
do horizonte se deitar
suavemente.

Em harmonia a espera,
no primeiro raio de claridade
e dá um sentido eterno e cálido,
aos nossos vultos enamorados.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O mais belo dos mares



O mais belo dos nossos mares
é aquele que ainda não navegamos.

O mais belo dos nossos filhos
ainda não nasceu.

O mais belo dos nossos dias
ainda não o vivemos.

E aquilo que de mais belo
te desejo dizer ainda não te disse.

Nazim Hikmet (1901-1963)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Folhas no vento


Tenho um pensamento
preso nas minhas folhas,
angustiado, do livro das
recordações libertado.

Extraído com músicas
em ferida num lamento.

Foram palavras que arderam
em dor, como o fogo que nos meus olhos colocaste.

Feitiço nas minhas mãos
amarrotado, em cinzas
de ardor transformado,
quando com o vento te
deitaste.

Recordação do meu destino
que já não arde em mim.

Amores desamoráveis,
olhares que se perdem,
no rasto perfumado de
estrelas inalcançáveis.

Voamos



Promessas de noites d'amor,
meigas como lembranças,
abandonadas em ardor,
com ansiedade abraças.

Queimo as minhas mãos,
nas delícias do teu corpo,
silêncios suados, arfados,
palavras de desejo,
dos meus lábios amados.

Perfume de seios e coração,
loucuras que me passam pela
mente, possuir-te assim
por trás ou pela frente.

Os teus suspiros saboreio,
ávidos loucos os meus sentidos,
selvagens na doçura excitação.

Penetro com fervor num
buraco negro do infinito,
danças em cima de mim,
com o meu corpo, insisto.

Na antecâmara do amor,
numa paleta de cores e
abandono, do momento
cósmico do orgasmo
legado com clamor.

Na lassidão e espasmos
de prazer...pousamos,
que no abraço dos
nossos corpos,voamos.

domingo, 17 de outubro de 2010

Recordação


Estou a consumir,
a recordação da tua,
última e breve presença.

Momentos demasiado
intensos, os nossos ,
que como furacões,
fustigaram e deixaram,
a ausência na minha vida.

O que fica é a desolação,
que espera até,
ao próximo encontro.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Amor que sabe a mar


O amor é maior do que o mar, tão poderoso,
de vista sem fim,
capaz de cegar.

O amor é tão belo como o mar, adultos em crianças se tornam, com olhos a brilhar, corações famintos,
que a saber a mar se querem abandonar.

Vida que tem outro sentido quando conhece o amor,
a perfeição tem outra visão
quando a vida sabe a mar,
na existência estes valores
queremos partilhar.

Em frente ao mar podemos ,
como no amor, num vai e vem
de ondas infinito, um novo
sabor a mar, na vida encontrar.

Amor-te


No silêncio da noite que arde,
abrigo-te dentro do meu abraço.

No esplendor das estrelas do
céu da tua boca abrigo-te
dentro do meu beijo.

Na ternura serena do amanhecer
que nasce dos teus olhos abrigo-te
dentro do meu olhar.

Na mais tormentosa tempestade
que queres fechar nas tuas mãos
abrigo-te dentro do meu carinho.

Na alegria que nasce no sol e na
tristeza em forma de mil lágrimas
abrigo-te dentro do meu sorriso.

Dentro do coração do meu,
coração...abrigo-te.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Fuga


No refúgio sou consumido,
nas asas d'um pássaro fujo,
através do vale fértil flutuo,
onde o sonho é crescido.

Campos e florestas,
com palavras se formam,
crescem, semeadas por
agricultores de mãos mestras.

Nuvens que se comprometem,
em formas recortadas pelo céu,
beijadas nos seios pelo vento,
nos braços do sol derretem.

Ninfas que duras não são,
para quem amam,
aos olhares de Brama,
se desnudam puras,
dos prazeres que abrasam a alma.

Rios que não correm para o mar,
que nascem, a montante pela
inspiração e se diluem a jusante,
na pena da criação.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

I carry your heart with me



i carry your heart with me
(i carry it in my heart)
i am never without it
anywhere i go you go,my dear;
and whatever is done by only me
is your doing,my darling)

i fear no fate (for you are my
fate,my sweet) i want no world
for beautiful you are my world,
my true) and it's you are whatever
a moon has always meant and whatever
a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody
knows (here is the root of the root
and the bud of the bud and the sky
of the sky of a tree called life;
which grows higher than the soul
can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's
keeping the stars apart

i carry your heart (i carry it in my heart)

E. E. Cummings (1894-1962)

Adeus


Deixa-me,
assim como apareceste.

Deixa-me,
sem um sinal,
sem uma palavra,
fogo d'uma lareira,
que se extingue.

Deixa-me,
sem um olhar.

Deixa-me,
faz-me escutar o eco dos
teus passos afastarem-se,
na chuva.

Deixa-me,
através da janela
escutar o dilúvio.

Deixa-me assim,
sem um verdadeiro,
adeus.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Falar às Palavras



Quero falar às palavras,
Quero falar-lhes com frescor,
Quero saber como se constituem,
Quem foi o seu escultor.

Quero falar-lhes com,
palavras, não com sangue,
quero escrever-lhes com
rosto, sem que me engane.

Quero palavras que saiam
do molde, palavras com ventre,
imagens vivas a elevarem-se,
na mente.

Não quero palavras,
pavorosas, sem sol,
que brilham na sombra,
como plantas venenosas.

Não quero palavras,
que se calcam, sem honra,
que agarram, ferem e matam.

Quero palavras eloquentes,
escritas com emoção, quero,
palavras que batam como,
um coração.

domingo, 10 de outubro de 2010

Deslumbre


Do todo já não resta nada,
na areia da praia de prata,
que Poseidon escolheu como,
amada.

Voam quadros de,
nuvens claras pintados,
das mãos aos filhos de Éolo,
arrancados.

O teu olhar que o brilho,
ao sol roubou, suave e doce,
no meu pousou e logo,
o raptou.

Na espuma das ondas,
desenhamos o que,
nos une, num beijo,
lacrado nas essências
d'um só perfume.

sábado, 9 de outubro de 2010


Idílio

Janela para o mar

Visão Romântica


A vida é um passo,
à frente do outro,
em busca d'um sonho,
d'uma ilusão.

Eu sonhei ficar vivo,
a solidão, a necessidade,
de afecto,
fizeram-me sonhar.
Ah, romântico visionário !!

Agora que olho no espelho,
o que vejo em mim ?
O que dizem os meus olhos ?
Para ti respirei afeição,
palavras gentis que encheram,
o coração.

Ah, romântico visionário !!
Acorda!!
Retorna à realidade da vida,
foi só um sonho, uma ilusão,
foi só...um passo de vida.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Voglio un amore doloroso



Voglio un amore doloroso, lento,
che lento sia come una lenta morte,
e senza fine (voglio che più forte
sie della morte) e senza mutamento.

Voglio che senza tregua in un tormento
occulto sien le nostre anime assorte;
e un mare sia presso a le nostre porte,
solo, che pianga in un silenzio intento.

Voglio che sia la torre alta granito,
ed alta sia così che nel sereno
sembri attingere il grande astro polare.

Voglio un letto di porpora, e trovare
in quell’ombra giacendo su quel seno,
come in fondo a un sepolcro, l’Infinito.

Gabriele D'Annunzio (1863-1938)

Chá das Cinco (A Jorge Amado)



chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo de saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge e nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alecrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna e late
chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá de funcho quando houver carunhco
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um acto falho
chá de bico quando houver fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso pra mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até manhã
chá de erva-doce e acabou-se

(pelo sim pelo não
chá de barbatimão)


(Gilberto Mendonça Teles)

Pele


É ver-te subir em mim,
corpo nu de desejo feito,
que saboreia a frescura
da pele que me morde,
o peito.

Nudez pelos seios talhada,
que dizem sim, ao ventre,
quente e macio, fecundo,
de excitação molhada.

Lábios de prepúcio,
embriagados,
que se afogam
em marés de prazer,
boca de falo que amacia,
usurpa, que me quer
enlouquecer.

Delírios e devaneios,
em vagas nos rasgam,
gemidos graves,
das profundezas jorram,
corpos magnificientes,
com asas.

Que atravessam mares,
que encontram casas.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Com Palavras

RagnatelaBlog
Com palavras,
desnudo o coração,
abro a sua alma,
árvore de vida,
nele plantada.

Lamento quem,
por ele morreu,
aclamo quem,
por ele ama.

Com palavras,
desnudo o coração,
e quero nele descrever,
o anelar do sereno.

Quero com palavras,
de tinta invisível escritas,
absorvê-lo, pois à,
solidão não o condeno.

sábado, 2 de outubro de 2010

Em Todas as Ruas te Encontro



Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny (1923-2006)

Corpo


Pelo teu corpo deslizo,
natural gesto vivo,
que no seu perfume,
animalizo.

No seu sabor leio,
poemas singelos,
que brotam dos seios.

Corpo possuído,
de delírio,
corpo possuído,
de desejo.

Exílio onde sempre,
me perco,
onde sempre,
me revejo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Enlevo


No silêncio te escondes,
trovões vociferados foram,
ecos que de nossos,

corpos casa fizeram,
como fragmentos,
de pura luz,

Adormeces devagar,
na linguagem em que,
teu corpo se envolveu,

Adormeces devagar,
num corpo que,
desagua no meu.