quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Eremitério



mais nada se move em cima
do papel nenhum olho de tinta
iridescente pressagia o destino
deste corpo os dedos cintilam
no húmus da terra

e eu

indiferente à sonolência
da língua ouço o eco do amor
há muito soterrado encosto
a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior dessa ânfora alucinada desço com a lentidão ruiva das feras ao nervo onde a boca procura o sul e os lugares dantes povoados

ah meu amigo

demoraste tanto a voltar
dessa viagem o mar subiu
ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado
pela serena desilusão
assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto (1948-1997)