quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A prova



...Reparei que tinha comprado lingerie nova, desfilou pelo quarto afagando o cabelo, ardendo por um comentário meu.
- Gosto muito.
- Comprei-a a pensar em ti, sabia que irias gostar. (sorrizinho)
Parou em frente ao espelho para os últimos retoques de maquilhagem...
-Como foi o dia?
-mmm,bom!
E pelo quarto aquela essência de perfume divagou na minha memória que me levou a recuar no tempo, até a um final de tarde na baixa, numa boutique de lingerie, indeciso sobre o que lhe havia de comprar para aquela ocasião tão especial (o jantar que lhe tinha prometido que até há data não conseguira realizar, mas desta vez ia ser mesmo), indeciso e um pouco atrapalhado com números, copas, modelos com alças ou sem alças. Tive a noção que a funcionária se aproximara e que reparou como me sentia indefinido na minha escolha.
-Boa tarde.
-Boa tarde.
-Posso ajudar?
- Sim, gostaria de comprar lingerie para a minha mulher, para uma ocasião especial, é uma surpresa, mas não sei que número veste e como é a primeira vez...
-Compreendo. Poderia ajudar se me dissesse como é o corpo dela.
-Bem, ela é...(a funcionária dá dois passos para trás enquadrando perfeitamente o seu decote na minha visão.)
-Sim...(diz ela)
-mmm, não querendo errar neste aspecto mas diria que os corpos se assemelham...
A funcionária sabendo que iria fazer uma e talvez a última venda do dia, tornou-se bastante atenciosa.
-Como já estamos na hora de fechar e será a última venda que faço hoje, (dirige-se para a porta trancando-a, colocando o letreiro em "Fechado") provarei os modelos de lingerie para si, podemos entrar nesta sala...
Ela própria escolheu os modelos expostos que poderiam também vestir a minha mulher e entramos.
Não queria acreditar no que se estava a passar, aquela mulher lindíssima estava à minha disposição, tinha o seu corpo à minha disposição.
Quando entramos na pequena sala forrada a espelhos não falamos, adaptamo-nos somente às nossas expectativas. Trazia um vestido alaranjado, com flores e uma fita que lhe modelava a cintura e se perdia num laço perfeito, laço esse desfeito com olhar fixo em mim. Sentei-me num velho sofá que jazia num canto da sala.
Ela abriu o vestido mostrando o seu corpo, talvez esculpido por algum anjo de Deus, digno de ser pintado, cantado por um poeta, um corpo "estratosférico".
Dirige-se para mim afaga-me o cabelo e dá-me um beijo.
-Onde estavas?
-Estava a olhar para ti.
-Parecias longe.
-Não. Estava mesmo aqui.
-Vamos?
-Vamos...