Há olhos que só olham o sonho;
e, quando o sonho se dissipa, ficam cegos.
Há pontes por onde não se passa, no inverno,
embora ninguém as guarde: pontes sem arcos,
abstractas como um arco-íris e frias como
a chuva da madrugada.
Um campo de erva que amadurece;
o feitiço fútil dos faróis quando a manhã
limpa as últimas névoas;
um bater de pálpebras como asas:
imagens que lembro
e me restituem os olhos
com que avisto a entrada da cidade.
[Nuno Júdice]